APJ
12/09/16 16:20 - Americana

Americanense cria tratamento inovador na área bucal

Pesquisadora Silvia Guerra Nista desenvolve mucoadesivo contra gengivite e as doenças periodontais com menos medicação

Silvia Guerra Nista é pesquisadora da Unicamp e criou um dispositivo contra gengivite e as doenças periodontais

Sangramento ao escovar os dentes, mau hálito e desconforto na gengiva são alguns dos sintomas da gengivite que, se não cuidada a tempo, pode evoluir para periodontite causando retração da gengiva e risco de queda dos dentes. O tratamento, por vezes, pode ser custoso: raspagem mecânica do tártaro instalado na parte superior do dente (geralmente sob a gengiva inflamada), além dos possíveis efeitos colaterais provocados pela medicação como náuseas, diarreia, alteração de humor e insônia.

A fim de amenizar os efeitos colaterais e potencializar o tratamento da doença, a americanense e pesquisadora da área, Silvia Guerra Nista, criou o mucoadesivo. Como o próprio nome diz, o dispositivo é uma espécie de adesivo que pode ser aplicado diretamente na mucosa sem que sua aderência seja comprometida.

“As mucosas em geral apresentam muitas vantagens para a liberação de fármacos”, diz Silvia. “Elas são altamente vascularizadas e qualquer droga que se difunda através da membrana tem acesso direto à circulação sistêmica, evitando os efeitos [colaterais] causados pela passagem hepática; são locais de fácil aplicação; melhora o desempenho de muitos fármacos pelo tempo de contato prolongado na mucosa e torna o tratamento menos invasivo em comparação as vias injetáveis”, explica.

As membranas (ou mucoadesivos) são carregadas com o fármaco metronidazol, antibiótico amplamente utilizado no tratamento da periodontite. Nos casos mais leves (gengivite), as membranas são aplicadas sobre a gengiva inflamada. Nos casos mais graves (periodontite), o mucoadesivo é posicionado exatamente dentro da bolsa periodontal, no espaço entre o dentre e a gengiva. A infecção geralmente começa com uma gengivite e vai progredindo até atingir a raiz e a estrutura de apoio do dente, criando um tipo de bolsa periodontal, que pode levar à perda do dentre. A doença é provocada pelo acúmulo de placa bacteriana nos dentes e gengiva, resultado da falta de higiene bucal adequada. Outras possíveis causas são variação hormonal, gravidez, hereditariedade, baixa imunidade, HIV, consumo excessivo de açúcar e, principalmente, o cigarro.

As doenças periodontais são bastante comuns, segundo a pesquisadora: 54% dos casos são entre pessoas de 15 a 19 anos de idade, e 67% entre 35 a 44 anos. O tratamento dos casos mais graves consiste na raspagem na raiz do dente para remoção do tártaro e sob a margem gengival, curetagem e alisamento radicular; aplicação de bactericidas no local; e ingestão de antibióticos para eliminar as bactérias. Dependendo do tamanho da bolsa periodontal causada pelas bactérias é necessária intervenção cirúrgica.

O mucoadesivo é carregado com o fármaco metronidazol e aplicado diretamente no local da infecção, liberando o antibiótico em doses infinitamente menores que no tratamento convencional, reduzindo os efeitos colaterais provocados pelo tratamento convencional. Segundo a pesquisadora, o comprimido possui dosagem 1.500 vezes maior que a necessária para combater a periodontite.

“Um problema sério no tratamento convencional está nas dosagens muito altas de antibióticos, entre 750 e 1.500 miligramas diárias, via oral. Isso resulta em problemas gastrointestinais como náuseas, diarreia, constipação; alterações do humor; insônia; depressão e confusão mental. Se a pessoa não tem condições para pagar o tratamento, a doença leva à perda do dente e, consequentemente, à baixa autoestima e ao isolamento social”, explica.

Outra vantagem é que o mucoadesivo é bioabsorvível (absorvido naturalmente pelo organismo). Nos casos leves, ele é aplicado sobre a gengiva e a indicação é que seja usado à noite, pouco antes de dormir, e a alimentação seja suspensa durante o período. Nos casos graves, ele é posicionado dentro da bolsa periodontal, permitindo que hábitos alimentares e de higiene sejam mantidos enquanto o dispositivo estiver na boca.

O mucoadesivo foi desenvolvido durante pesquisa de doutorado da americanense Silvia Guerra Nista e obteve resultados satisfatórios na fase de testes com animais. O dispositivo ainda será testado em seres humanos antes de chegar ao grande público. A tese, entitulada “Membranas de nanofibras com alta adesão para liberação bucal de fármacos”, foi desenvolvida na FEQ (Faculdade de Engenharia Química), da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), sob a supervisão de Lucia Helena Innocentini Mei e financiada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

As membranas são produzidas a partir de nanofibras de alginato e quitosana, que são polímeros naturais mucoadesivos, para uso intracorporeo e extracorporeo (com núcleo de acetato de celulose). De acordo com a pesquisadora Silvia Guerra Nista, o material tem baixo custo e pode ser fabricado a partir de uma grande variedade de materiais.

Apesar do uso odontológico, a tecnologia pode ser estendida para outras áreas de saúde como, por exemplo, no tratamento de doenças cardiovasculares e câncer ou reposição hormonal. “O mucoadesivo pode ser aderido em qualquer região da mucosa bucal [bochecha, palato, sublingual] para liberar outro fármaco, proteínas, peptídeos, insulina, calcitronina, hormônios, analgésicos, enzimas, esteroides, agentes cardiovasculares ou mesmo um fármaco antitumoral, reduzindo os efeitos colaterais provocados por medicamentos quimioterápicos”, diz a pesquisadora. “O metronizadol foi o fármaco modelo, mas é possível a incorporação de outros medicamentos neste dispositivo.”

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