APJ
22/08/14 00:05 - São José do Rio Preto

Maniglia deixa governo em meio à crise do Ielar

Rodrigo Lima / Victor Augusto

Maniglia nega motivações políticas para demissão; desejo de deixar governo vinha desde maio

Em meio à crise sem precedentes envolvendo o Instituto Espírita Nosso Lar (Ielar), o secretário de Saúde de Rio Preto, José Victor Maniglia, deixou o cargo após reunião com o prefeito Valdomiro Lopes (PSB). Apesar de Maniglia não revelar os verdadeiros motivos de sua demissão, um conjunto de fatores teria pesado na decisão, como a crise no Ielar, a transferência de serviços da rede pública de saúde para o setor privado, a dificuldade em emplacar projetos, além do descontentamento da classe médica com a condução da pasta.

A demissão do secretário e de seu assessor especial, Valter Negrelli Júnior, foi comunicada numa nota de quatro linhas, em que a Prefeitura aponta como causa “motivos particulares.” Quem assume interinamente a pasta é a enfermeira Teresinha Pachá, que já era assessora da Saúde. Além da crise no Ielar, que suspendeu atendimentos do SUS, um ponto de desentendimento seria que Maniglia e familiares seriam responsáveis por serviços de otorrino prestados no Ielar, que antes eram fornecidos pelo Ambulatório Regional de Especialidades (ARE).

Nos bastidores, médicos dizem que Maniglia estava ainda sob pressão da categoria, que não concorda com projeto que criou 167 cargos para médicos plantonistas que vão receber até R$ 1,4 mil por plantão. O Diário apurou que os médicos da rede pública de saúde estavam se articulando para reivindicar aumento de salários, entre outros benefícios. O secretário deixou a pasta no meio da operação para tentar “salvar” o hospital Ielar, que tem uma dívida com o município superior a R$ 8 milhões. “Tudo tem começo, meio e fim.

Chegou o nosso fim”, afirmou Maniglia, reiterando que deixou o cargo por “motivos particulares”. Segundo Maniglia, o prefeito busca garantias sobre a legalidade da concessão de subvenção no valor de R$ 5 milhões ao Ielar. O hospital receberia o valor parcelado para retomar atendimentos do Sistema Único de Saúde (SUS). “O prefeito quer ajudar o Ielar, mas tudo dentro da legalidade. Ele está fazendo as coisas com precaução. E está certo”, afirmou o secretário.

Maniglia nega que sua saída da secretaria foi motivada pela negociação entre o município e o Ielar. “Já estava há algum tempo, desde de maio, pedindo para sair para resolver problemas particulares. A questão do Ielar não tem nada a ver comigo”, afirmou o secretário, que em nenhum momento citou qualquer tipo de descontentamento com o prefeito. O secretário disse ser favorável à concessão dos recursos ao Ielar.

“Ele (prefeito) disse que tem interesse em ajudar o Ielar”. De acordo com Maniglia faltam apenas três ano para sua aposentadoria compulsória. “Daqui 3,5 anos chego aos 70 anos e a aposentadoria compulsória”, disse.
No diário oficial de hoje será publicada sua exoneração. A substituta, Teresinha Pachá, disse que será “um grande desafio” assumir a pasta, que já comandou por curto período em 2010, quando Maniglia sofreu acidente de moto.

‘Coisa errada’

O vereador Renato Pupo (PSD), presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apurou irregularidades na Saúde, afirmou que a investigação apontou muita “coisa errada.” O relatório da investigação é alvo de apuração do Ministério Público. Maniglia retornou ao comando da secretaria em dezembro do ano passado, no auge da investigação aberta na Câmara.

Ele nega a existência de irregularidades na pasta. “Para mim, a CPI foi política. Vamos ver o que o promotor acha”, disse o secretário sobre a apuração feita pelo promotor de Justiça Sérgio Clementino, que investiga o caso com base na investigação feita pelos membros da CPI.

Na Justiça

Ao lado de Valdomiro, Maniglia responde a processos na Justiça. Em um deles, o secretário de Saúde é réu ao lado do prefeito e do consultor de Saúde José Humberto de Aguiar Júnior, conhecido como Júnior Baiano. Todos negam as acusações. A ação questiona a dispensa de licitação para contratação do consultor.

Em 2011, Maniglia havia deixado o governo para assumir o comando da Direção Regional de Saúde (DRS) antes de retornar à Secretaria de Saúde do município. Ele voltou em dezembro do ano passado, onde permaneceu até ontem.

Diretor de hospital adia decisão sobre futuro

O pedido de demissão do secretário de saúde, José Victor Maniglia e do secretário especial, Valter Negrelli, fizeram com que o diretor do Ielar, Paulo Togni, adiasse decisão sobre sua permanência à frente do Instituto. Em entrevista na última sexta-feira, Togni afirmou ao Diário que caso a situação do Ielar não fosse resolvida até segunda-feira (ontem), ele pediria demissão. “Decidi esperar até amanhã (hoje) ou quarta-feira para tomar essa decisão.

Fui surpreendido com a demissão dos secretários e agora vamos esperar os desdobramentos. Mas, se amanhã (hoje) ou, no máximo na quarta-feira, nada for proposto, eu não vou ficar”. Togni tem um plano de negócios pronto para apresentar para a Prefeitura. De acordo com ele, o hospital precisa de verba extra para conseguir reduzir o déficit e com isso conquistar verbas parlamentares, atender pacientes de média e alta complexidade, e assim, se manter. Outra solução encontrada por Togni é aumentar o número de atendimentos particulares.

Hoje o hospital atende 98% de pacientes do SUS. “Nossa ideia é contrabalancear esses números. Se atendêssemos 70% de SUS e outros 30% de pacientes vindos de convênios particulares, nossa receita aumentaria”. O problema da Prefeitura com o Ielar começou em junho deste ano, quando a instituição, alegando falta de verba, decidiu parar todos os atendimentos de saúde.

No mês seguinte, após o hospital cumprir as exigências da Prefeitura - parcelamento de uma dívida de R$ 8 milhões e o afastamento da antiga diretoria -, o atendimento voltou ao normal. Porém, na semana seguinte à volta dos atendimentos, o hospital perdeu um documento importante emitido pela receita federal a Certidão Negativa de Débitos (CND) e com isso, os repasses da Prefeitura à instituição foram bloqueados.

No início de agosto o convênio entre os hospital e a Prefeitura terminou e não foi renovado pois a instituição não apresentou a CND. Uma semana depois, a Justiça aceitou o prédio do Ielar e emitiu a CND. Mesmo com o documento, o convênio não foi retomado. Uma comissão foi nomeada por Valdomiro para analisar a situação, mas até ontem nenhuma decisão foi tomada.

CMS desiste de ação contra Pachá

O presidente do Conselho Municipal de Saúde (CMS) de Rio Preto, Rogério Vinícius dos Santos, desistiu da ação de danos morais que movia contra a secretária interina de Saúde Teresinha Pachá. O pedido foi acatado pelo juiz da Vara do Juizado Especial Cível, Cristiano de Castro Jarreta Coelho, na semana passada. A ação questionava supostos ataques recebidos por Santos durante reunião realizada pelo CMS.

Ele havia alegado que Teresinha o difamou durante encontro do conselho. Teresinha negou as acusações em sua manifestação na Justiça. Santos acusou o governo do prefeito Valdomiro Lopes (PSB) de manobrar para tentar retirá-lo da direção do CMS. Com a decisão da Justiça, a ação será arquivada nos próximos dias. O presidente do CMS também desistiu da ação de danos morais que movia contra a conselheira Marilda Cristina Abrahão de Araújo.

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